Sistemas agroalimentares na amazônia
O artigo analisa as Redes Curtas de Comercialização (RCCs) de alimentos a partir das relações socioespaciais assimétricas entre cidade e campo na região de Manaus. Questiona-se a ideia de que tais redes emergem exclusivamente como iniciativas autônomas dos agricultores familiares e, em contraponto, levanta-se a hipótese de que muitas das inovações associadas às RCCs (técnicas, organizacionais, discursivas e comunicacionais) são impulsionadas por demandas, valores e saberes produzidos no meio urbano, configurando fluxos que partem da cidade em direção ao rural. Nesse sentido, o trabalho discute como essas dinâmicas produzem espaços-tempos híbridos, marcados pelo imbricamento entre saberes, práticas, racionalidades, valores, territorialidades e temporalidades rurais e urbanas, onde os agricultores passam a reorganizar seus modos de produção, comercialização e comunicação. A análise evidencia que, embora as RCCs possam ampliar a visibilidade do agricultor e fortalecer circuitos locais de abastecimento, elas também reproduzem desigualdades socioespaciais, seletividades de acesso aos alimentos e novas formas de subordinação territorial. Ao problematizar quem define o valor dos alimentos, quem acessa os alimentos considerados saudáveis e quem se beneficia economicamente dessas redes, o artigo contribui para uma leitura crítica das RCCs como inovação social, destacando seus limites, contradições e implicações para a soberania alimentar e o desenvolvimento regional na Amazônia.
This paper analyzes Short Food Supply Chains (SFSCs) based on the asymmetric socio-spatial relationships between the city and the countryside in the Manaus region, Amazonas State, Brazil. It questions the notion that such networks emerge exclusively as autonomous initiatives of family farmers. In contrast, it hypothesizes that many of the innovations associated with SFSCs (technical, organizational, discursive, and communicational) are driven by demands, values, and forms of knowledge produced in urban settings, thereby configuring flows that emanate from the city toward the rural area. In this sense, the paper discusses how these dynamics produce hybrid space-times, characterized by the interweaving of rural and urban knowledge, practices, rationalities, values, territorialities, and temporalities, through which farmers reorganize their modes of production, commercialization, and communication. The analysis shows that although SFSCs may enhance farmers' visibility and strengthen local supply circuits, they also reproduce socio-spatial inequalities, selective access to food, and new forms of territorial subordination. By problematizing who determines the value of food, who accesses food considered healthy, and who benefits economically from these networks, the article contributes to a critical interpretation of SFSCs as social innovation, highlighting their limitations, contradictions, and implications for food sovereignty and regional development in the Amazon.